sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Avanços médicos de 2010


A Reader's Digest revê as últimas descobertas da medicina, a Prémio Nobel Elizabeth Blackburn fala-nos do seu trabalho em envelhecimento celular e seis investigadores de ponta falam-nos das suas esperanças para futuros avanços.


Brevemente: olho biónico para restabelecer a visão.
Cientistas australianos maravilharam o Mundo com o implante coclear – o «ouvido biónico» –, e agora a mesma equipa está a trabalhar num «olho biónico». Neste momento, o Dr. Anthony Burkitt, director de pesquisa da Bionic Vision Australia e professor de Engenharia na Universidade de Melburne, está suficientemente confiante para afirmar que «este novo dispositivo será muito superior a outros implantes retinais em desenvolvimento». O olho usa uma pequena câmara de vídeo fixada aos óculos do paciente para captar imagens. Estas são por sua vez traduzidas para um impulso eléctrico que estimula eléctrodos inseridos na mesma zona da retina que é normalmente activada pela luz. Com o tempo, o paciente aprende a interpretar estes sinais neurológicos como visão útil.
«O princípio é o mesmo que o do ouvido biónico, mas há mais desafios técnicos», diz o Prof. Rob Shepherd, director do Instituto do Ouvido Biónico, que também colabora com a Bionic Vision Australia no projecto. O ouvido biónico ofereceu uma quantidade útil de informação auditiva com 22 eléctrodos. No entanto, um substituto do olho, para ser útil, necessita de, pelo menos, 100, talvez 1000, eléctrodos. À medida que a tecnologia evolui e são adicionados mais eléctrodos, a qualidade da visão permitirá aos cegos reconhecerem faces familiares e lerem textos em tamanho grande. »

Um protótipo de 100 eléctrodos começará a ser testado em pacientes em 2013, e um modelo de 1000 eléctrodos é esperado cerca de 2015.

Uma hipótese contra o cancro

Depois de 30 anos de começos desanimadores, finalmente estão a caminho «vacinas» contra o linfoma, o cancro da próstata, melanoma e neuroblastoma.

No ano passado, um teste a pacientes com melanoma em estádio avançado teve 22% de resposta favorável a uma vacina combinada com uma substância de imunoterapia, a interleukina-2 (IL-2), comparada com 9,7% em pacientes que receberam tratamentos convencionais. Segundo o Dr. Patrick Hwo, chefe de Melanoma no Centro de Cancro M.D. Anderson da Universidade do Texas, «se pudermos usar as defesas do corpo para atacar células cancerígenas, poderemos eliminar o cancro do corpo sem destruir tecido saudável».
A vacina actual apenas pode ser dada a 50% das pessoas com melanoma e tem de ser compatível com o tipo de tecido do paciente. «Os estudos tentam identificar que pacientes responderão». 2-5 anos

Vacinas: a próxima geração

Vacina oral sem agulhas

Em 2005, Barry Marshall, um cientista de Perth, ganhou o Prémio Nobel por descobrir que a bactéria Helicobacter pylori causa úlceras de estômago. Marshall tem estado a trabalhar em formas de dar melhor uso a este «bicho», que existe naturalmente no estômago – como um portador de vacinas.

O seu plano? Se pegarmos em algum ADN de um agente nocivo – como o vírus da gripe – e o clonarmos dentro de H. pylori, ele começa a exibir partes do vírus à superfície. «Quando o H. pylori se desenvolver no seu estômago, você fica vacinado contra a gripe», explica. 10 anos

Redução do risco de HIV

Em Setembro, investigadores americanos relataram a primeira vacina bem-sucedida num teste com mais de 16 000 pessoas na Tailândia.
A vacina reduz o risco de doença em quase um terço. O Dr. Seth Berkley, CEO da Iniciativa Internacional da Vacina da sida, considera o estudo pioneiro. «Vimos pela primeira vez que uma vacina da Sida pode prevenir a infecção em humanos.» Apesar de a vacina ainda não estar disponível, oferece um salto em frente sem precedentes. 10 ou mais anos

Um exame mental mais rápido

Um portal para a mente

Cientistas no Centro de Pesquisa Psiquiátrica Alfred Monash, em Melburne, desenvolveram uma sonda do ouvido que oferece uma linha directa ao cérebro e que eles acreditam ir revolucionar o diagnóstico e tratamento das doenças mentais.
A sonda usa o canal auditivo para chegar a partes do cérebro que controlam o equilíbrio, mas onde podem também aferir a depressão e a esquizofrenia. O inventor Brian Lithgow, um investigador biomédico da Universidade de Monash, chama-lhe «o ECG (electrocardiograma) da mente», analisando os sinais eléctricos do cérebro da mesma forma que o ECG detecta os problemas do coração.

Uma das principais vantagens: pode detectar diferenças de sinais em pessoas com doença bipolar, distinta das unipolares ou simples depressão. Diz Lithgow: «A depressão bipolar pode levar anos a ser diagnosticada correctamente. Agora abre-se a possibilidade de fazer isso numa hora.» 5 anos

Poder para o coração
Monitorização móvel

A tecnologia bluetooth apresta-se a mudar os exames médicos, especialmente do coração. A Alive, uma pequena companhia da Costa Dourada da Austrália, desenvolveu um sistema que regista e transmite os dados do seu ritmo cardíaco via telefone móvel – para que o seu especialista o avise quando aparecer um problema.
Os monitores Alive já estão a funcionar. Pacientes em cardiorreabilitação podem agora ser seguidos quando fazem exercício. Agora

Preservando os corações doados

Os transplantes de coração são uma corrida contra-relógio: os corações começam a deteriorizar-se 5 horas depois de retirados do corpo. Cientistas do Instituto de Investigação Cardíaca Victor Chang, em Sydney, reformularam a solução que protege o coração doado, duplicando potencialmente o tempo de vida do órgão fora do corpo. Testes com órgãos humanos começam este ano.
De momento, cerca de 60% dos corações doados são excluídos devido à idade do dador ou ao estado do coração. Segundo o Prof. Peter Macdonald, líder do projecto, «pensamos que a solução vai permitir-nos usar corações mais vulneráveis ao dano e potencialmente aumentar o número de transplantes em cerca de 50%».
A equipa espera que a solução também funcione com outros órgãos, como pulmões, fígado, rins e pâncreas. 2 anos

Cancro: melhores diagnósticos e tratamentos
Tratamento direccionado

Robert Goldman fez fortuna como engenheiro de software, mas quando a sua irmã contraiu cancro do cólon terminal, empenhou o seu dinheiro em desenhar um dispositivo que pudesse oferecer melhor quimioterapia à irmã. O ano passado, depois de oito anos de pesquisa, a FDA aprovou o Iso- Flow de Goldman. Um cateter minúsculo é inserido nas veias do paciente para levar a medicação directamente aos vasos que alimentam o tumor, sem afectar as células saudáveis. «É mais um ataque cirúrgico do que um bombardeamento da área», diz o Dr. Huy Do, um neurorradiologista da Escola de Medicina de Stanford. Agora

Rastreios de cancro mais rápidos

Cientistas americanos usaram com sucesso nano-sensores para localizar com precisão o cancro no sangue de pacientes. Os testes mais recentes podem detectar as mais pequenas concentrações de biomarcadores de cancro, na ordem dos trilionésimos de grama por mililitro, o equivalente a conseguir detectar um só grão de sal dissolvido numa piscina grande. Em vez de esperar dias por resultados de laboratório, o teste faz uma leitura em poucos minutos. 2-3 anos

Regeneração do peito

Mais de 5000 mulheres australianas por ano perdem os seus seios para o cancro da mama. Uma técnica experimental pode permitir-lhes desenvolver os seus próprios seios «sobresselentes» em cerca de 6 meses. A tecnologia Neo-Pec
envolve o implante de uma câmara biodegradável debaixo da pele para servir de alicerce ao novo peito.

Um vaso sanguíneo da axila é redireccionado para uma área de tecido gordo do paciente. A gordura cresce até preencher a câmara, que se dissolve quando o novo peito estiver formado. É uma alternativa natural ao implante de silicone, diz o Prof. Wayne Morrison, do Instituto Bernard O’Brien de Microcirurgia. 3 ou mais anos

Molécula de Tróia

Cientistas do Instituto da Austrália Oeste para a Pesquisa Médica desenvolveram uma molécula  recheada com um agente inflamatório que se associa especificamente aos tumores pancreáticos e atrai milhões de células imunitárias para o local a fim de matar o tumor.
«O que activa o sistema imunitário é o agente inflamatório que adere ao tumor e inflama a área – idêntico ao que acontece numa inflamação de pele – e as células imunitárias vêm a correr para lutar contra a infecção», explica a Prof.ª Ruth Ganss, que dirige a equipa.  5-10 anos
 
Diabetes: melhores terapias e qualidade de vida

Suspensão de tratamento

O Sistema Minimed Veo, da Medtronic, suspende a administração de insulina se o seu utilizador não responder a avisos para reduzir o risco de hipoglicemia. Agora

Brincadeira de crianças

O Glucoboy foi o primeiro monitor que é ao mesmo tempo um jogo de computador que recompensa as crianças por testar os seus níveis de glicose.
Mais recentemente, a Bayer lançou o monitor Didget, que liga directamente aos sistemas Nintendo DS. Agora

Pâncreas artificial

Há décadas que os investigadores tentam coordenar o doseamento da insulina com as flutuações do açúcar no sangue.
Cientistas da Universidade de Cambridge estão a desenvolver um sistema de pâncreas artificial que combina um monitor contínuo de glicose com uma bomba de insulina com um algoritmo que calcula a insulina necessária. Em testes nocturnos, crianças mantiveram um nível normal de açúcar no sangue 60% do tempo, comparados com os 40% com uma bomba normal. O director do estudo, Roman Hovorka, diz: «Isto é criticamente importante porque entre 50 e 70% das emergências hipoglicémicas ocorrem de noite.» 4 anos

Doce descoberta

Cientistas da Universidade do Cruzeiro do Sul, em Lismore, descobriram compostos na cana de açúcar que controlam a absorção de hidratos de carbono e reduzem os níveis de açúcar no sangue. Em testes, os compostos mostraram-se 125 vezes mais eficazes que o equivalente farmacêutico. Os composto foram transformados numa substância chamada Gl-Wise, que pode ser usada como aditivo alimentar ou como base para novos medicamentos. 5 anos

Robôs em lugares de difícil acesso

Investigadores em Melburne estão a a trabalhar num motor mais pequeno que a espessura de 4 cabelos humanos. O «Motor Proteus» vai ser suficientemente pequeno para ser injectado na corrente sanguínea, navegar nas artérias e órgãos e efectuar procedimentos cirúrgicos de risco. «Robôs-miniaturas controlados remotamente, suficientemente pequenos para nadar pelas artérias, podem salvar vidas por chegar a partes do corpo inacessíveis aos cateteres», diz o Prof. James Friend, da Universidade de Monash. 5 anos

Prof.ª Jennie Brand-Miller
Professora de Nutrição Humana na Universidade de Sydney, a Dra. Brand-Miller revolucionou o nosso conhecimento dos hidratos de carbono e alimentação com o seu trabalho no índice de glicemia (IG).

O avanço médico mais excitante dos últimos 12-18 meses?
A descoberta de que a síndroma de cólon irritável pode estar ligada à intolerância ao glúten em pessoas sem doenças do cólon.

Qual o avanço médico em que gostaria de ter pensado?
Implantes cocleares. Sou uma beneficiária, tenho dois ouvidos biónicos.

O nosso maior avanço médico em 2060?
A terapia por células estaminais tem a resposta para a diabetes tipo 1, lesões da espinal medula, doença de Parkinson e muitas outras doenças, como a surdez e a cegueira.

A sua descoberta de sonho?
Terapia de células estaminais para a surdez. A minha filha de 22 anos tem o mesmo gene de surdez que eu.

Área de saúde que mais precisa de um avanço?
Obesidade e diabetes tipo 2.


Prof. Ian Frazer
Imunologista da Universidade de Queensland, Austrália. Liderou a pesquisa sobre o vírus do papiloma humano e a vacina para o cancro cervical.

O avanço médico mais excitante dos últimos 12-18 meses?
A sequenciação do genoma humano. Se conseguirmos traçar o mapa que explique porque algumas pessoas respondem bem a certas terapias e outras não, temos muito mais capacidade de enfrentar a doença.

Qual o avanço médico em que gostaria de ter pensado?
Todas as vacinas em que não tenha estado envolvido. As vacinas são o mais importante meio defensivo de saúde que temos.

O nosso maior avanço médico em 2060?
Passar a mensagem de que o que fazemos influencia o nosso risco de doença. Se as pessoas não fumarem, não se expuserem ao sol, não ganharem peso demais, não morrem aos 50 ou 60, mas sim aos 80-90.

A sua descoberta de sonho?
Uma terapia que retarde a ocorrência das doenças crónicas do envelhecimento, em particular a demência.

Área de saúde que mais precisa de um avanço?
A saúde mental. Se a virmos pelo grau de incapacidade, está no topo da lista.


Prof. Salim Abdool Karim
Epidemiologista de doenças infecciosas no Centro para o Programa de Investigação da Sida na África do Sul. O Dr. Abdool Karim é um dos mais eminentes investigadores mundiais do HIV/sida.

O avanço médico mais excitante dos últimos 12-18 meses?
A descoberta de que a circuncisão médica pode reduzir a incidência do vírus HIV em cerca de 60%.

Qual o avanço médico em que gostaria de ter pensado?
Dois estudos separados, um nos EUA outro no Uganda, dão mostras de que drogas anti-retrovirais tomadas por mulheres grávidas podem evitar que os recém-nascidos sejam infectados pelo HIV.

O nosso maior avanço médico em 2060?
Uma vacina para a sida, a nossa melhor esperança contra a infecção por HIV.

Prof.ª Judith Whitworth
Perita em hipertensão.

O avanço médico mais excitante dos últimos 12-18 meses?
O Governo Britânico tem trabalhado com a indústria alimentar para reduzir o sal na comida processada e reduzir o risco de doenças cardiovasculares. Se conseguirmos reduzir a ingestão de sal substancialmente em todo o Mundo, preveniremos muitos milhões de mortes (bem como deficiências).

Qual o avanço médico em que gostaria de ter pensado?
A revolução da bioinformática, que está a transformar a biologia e os cuidados médicos, pela capacidade de ligar e manipular dados de todos os tipos.

A sua descoberta de sonho?
Compreender o cérebro e a mente tão bem como compreendemos o corpo. Ligar o conhecimento de como uma simples célula nervosa funciona com a supercomputação, para compreender as redes de biliões de células nervosas nos nossos cérebros, que irá revolucionar cada aspecto da nossa vida e reduzir o fardo da demência e doenças mentais.

Prof. Stephen O’Rahilly
Professor de Bioquímica Médica e Medicina na Universidade de Cambridge. É um dos principais investigadores mundiais nas causas genéticas e fisiológicas da obesidade.

O avanço médico mais excitante dos últimos 12-18 meses?
Estudos genéticos que mostram as vias no corpo responsáveis por controlar factores como peso do corpo e glicose do sangue. Se conseguirmos compreender como o carro é construído, somos muito mais capazes de o afinar.

Qual o avanço médico em que gostaria de ter pensado?
O trabalho dirigido pelo Dr. Jeffrey Friedman, que identificou a leptina, um sinal hormonal produzido pelas células de gordura que regula a absorção de comida e dispêndio de energia.

O nosso maior avanço médico em 2060?
A capacidade de compreender o genoma humano. Em 2060, teremos uma noção muito maior das bases de muitas doenças.

A sua descoberta de sonho?
Descobrir formas de prever e prevenir perturbações psiquiátricas pela melhor compreensão da biologia.

2 comentários:

A. João Soares disse...

Amiga Fê,

Este artigo é uma vacina poderosa para manter a esperança no futuro.
Felizmente, há cientistas entretidos em melhorar as condições de vida das pessoas.
Obrigado por ter trazido aqui esta informação de grande utilidade.

Beijos
João

Do Miradouro

Ministério disse...

Olá, blogueiro (a),

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Para obter material de divulgação, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br

Atenciosamente,

Ministério da Saúde
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